terça-feira, 28 de março de 2017


O sonho é a pior das cocaínas, porque é a mais natural de todas. 

Assim se insinua nos hábitos com a facilidade que uma das outras não tem, se prova sem se querer, como um veneno dado. 

Não dói, não descora, não abate – mas a alma que dele usa fica incurável, porque não há maneira de se separar do seu veneno, que é ela mesma.



 Fernando Pessoa

domingo, 26 de março de 2017

design


"Carregavas dentro de si


Infinitas manhãs.


Não se importava com a cor,


Que via da janela...


Cinza ou azul,


Ela renascia


O passado, cabia num ontem,


O presente, num sorriso


O futuro...


Num doce Let it be."






Bruno de Paula

sábado, 25 de março de 2017


O que buscamos
uns nos outros
é sempre a noite





José Tolentino Mendonça

terça-feira, 21 de março de 2017


"Quero-te, 
como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. 

Quero 
o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. 

Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.”



Nuno Júdice

Encontrei uma fotografia nossa dos tempos felizes. 
Estava dentro de um livro que me ofereceste. 
A marcar a passagem que mais me doeu. 
E não pude deixar de sorrir. 
Foi um crime minúsculo, já o sabemos.
 Ainda assim: perdoas?




Fiama Hasse Pais Brandão

domingo, 19 de março de 2017


Definir saudade? 
Não consigo. 
É dos sentimentos mais avassaladores que existem. 
Como se descreve o vazio? 
O silêncio? 
A ausência? 
O pedaço de nós que se ausentou?
Saudades não é só sentir falta de alguém.
 É sentir a falta de alguém em nós. 
Dentro de nós.
 É ter saudades de nós com alguém. 
É o estar por estar, e o ser por ser.
Como se traduz em palavras aquilo que a saudade corta sem nada nos tocar.
 Que fere. 
Que magoa. 
Que esvazia. 
Que ecoa. 
Que enlouquece.
Nada disto se assemelha à saudade que sinto.
 São pequenas as palavras que a descrevem.
Definir saudade?
 Não me é possível.
 Talvez por a sentir tão em mim.




Autor Desconhecido 


Lindoooooooooooooooo!!!!!

terça-feira, 14 de março de 2017

lindo de morrer


Pela porta da frente eu não podia sair de dentro de mim mesmo com vida, porque não havia porta da frente.


Manoel de Barros 

domingo, 12 de março de 2017


Lá bem no fundo está a morte, mas não tenha medo. 
Segure o relógio com uma mão, com dois dedos na roda da corda, suavemente faça-a rodar. 
Um outro tempo começa, perdem as árvores as folhas, os barcos voam, como um leque enche-se o tempo de si mesmo, dele brotam o ar, a brisa da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.

Quer mais alguma coisa?
 Aperte-o ao pulso, deixe-o correr em liberdade, imite-o sôfrego. 
O medo enferruja as rodas, tudo o que se poderia alcançar e foi esquecido vai corroer as velas do relógio, gangrenando o frio sangue dos seus pequenos rubis.
 E lá bem no fundo está a morte, se não corrermos e chegarmos antes para compreender que já não interessa nada.


Julio Cortázar,

Tu dás o primeiro passo e a vida ajuda-te a fazer o resto. 
Dás o salto e a rede aparece.
 Pões aquele ponto final e abre-se um novo parágrafo. 
Perdoas os erros e a vida torna-te mais tolerante. 
Manténs os pés firmes no chão e encontras o teu caminho.
 Amas sem pedir nada em troca e vives o amor para o resto da vida. 
Cuidas mais de ti, e do que é essencial, e aprendes a praticar o desapego. 
Deixas de te preocupar com o que não tem fundamento e percebes que é o silêncio que confunde. 
Conjugas a paz na primeira pessoa do plural e aprendes que é ela o princípio, o meio e o fim de todas as coisas.



Autor Desconhecido 

Minha gentil:
 Quem me dera ser uma ave: arrancaria uma pena às minhas asas e, voando ao céu, embebê-la-ia na tinta da aurora, naquela tinta vermelha com que os anjos escrevem cartinhas de namoro às estrelas… 
quem me dera escrever-te com uma pena assim, e com uma tinta igual – eu seria, pela primeira vez, anjo, e tu serias o que há muito és: estrela.




- António Nobre, 1867-1900, a Cândida Ramos, de quem estava enamorado

domingo, 5 de março de 2017


A minha saudade tem o mar aprisionado

na sua teia de datas e lugares.

É uma matéria vibrátil e nostálgica

que não consigo tocar sem receio,

porque queima os dedos,

porque fere os lábios,

porque dilacera os olhos.

E não me venham dizer que é inocente,

passiva e benigna porque não posso acreditar.

A minha saudade tem mulheres

agarradas ao pescoço dos que partem,

crianças a brincarem nos passeios,

amantes ocultando-se nas sebes,

soldados execrando guerras.

Pode ser uma casa ou uma rede

das que não prendem pássaros nem peixes,

das que têm malhas largas

para deixar passar o vento e a pressa

das ondas no corpo da areia.

Seria hipócrita se dissesse

que esta saudade não me vem à boca

com o sabor a fogo das coisas incumpridas.

Imagino-a distante e extinta, e contudo

cresce em mim como um distúrbio da paixão.



José Jorge Letria

quinta-feira, 2 de março de 2017


Um dia
sem ouvir a tua voz
é como descobrir
que o mar morreu.



David Mourão-Ferreira

quarta-feira, 1 de março de 2017


Desdobrei a minha orfandade
sobre a mesa, como um mapa.
Desenhei o meu itinerário
até ao meu lugar ao vento.
Os que chegam não me encontram.
Os que espero não existem.

E bebi licores furiosos
para transmutar os rostos
num anjo, em copos vazios.



Alejandra Pizarnik,

Por isso esta ferida que faz bem

este prazer que dói como outro algum

e este estar-se tão dentro e sempre aquém.






Manuel Alegre


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