terça-feira, 31 de janeiro de 2017


De algumas coisas, sinceramente, me envergonho. 


De outras, me perdoo.





Clarissa Corrêa.

Coisas que não passam. 
Há quem diga que dentro da cabeça, eu não sei onde. 
Coisas que de vez em quando voltam e por isso, só por isso, 
se sabe que não passam. 
Coisas que nos agarram por
detrás da nuca, frente a um espelho, sem qualquer propósito, 
e só nos deixam sem querermos. 
Pequenos rogos, doces chamamentos, 
partidas muitas, asperezas, ciúmes, vícios, abraços ternos,
despedidas, raivas, tédios, pequenos espantos, sobressaltos. 
Coisas que não passam, há quem diga que dentro da cabeça. 
Eu não sei onde 





Pedro Paixão

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017


Falo como em mim se fala. 

Não a minha voz destinada a parecer uma voz humana mas sim a outra que testemunha que não deixei de morar no bosque.




Alejandra Pizarnik

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017


Cruza sobre mim 
As pontas do vento 
E orienta-as a sul...







Ana Paula Tavares

terça-feira, 17 de janeiro de 2017


Também quiseste ser a concha, ter um abrigo seguro na pérgula das águas. 

E foste apenas um molusco indefeso e vulnerável a todos os engôdos e a todos os anzóis. 






Albano Martins

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017


Nunca conheci os meus inquilinos da vida
Não sei quando saem, nem quando entram, 
em que estação ignota descansam de suas misérias. 

As mulheres têm saído deste corpo a bater com as portas queixando-se da minha tristeza, mas já se têm queixado da umidade, de muito frio, até de mofo na dispensa. 

Vão-se sempre sem pagar os inquilinos da minha vida e o pátio fica novamente vazio. 

Meu coração deixa de ser albergue de famintos para acolher os pássaros todos que arribam no verão e esperam que voltes pelas tuas coisas a este hotel de passagem em que é sempre noite. 





Federico Díaz-Granados

domingo, 15 de janeiro de 2017


Tão impossível a noite que não vinha contigo

nem chegava por ti. 

Tão impossível, e tão lentos os seus dedos de faca arranhando as minhas costas,

destroçando as minhas costas,

que não soube mais noite para além da luz dos teus dedos.





Ángel Mendoza

As pessoas nunca terminam, 

Simplesmente se abandonam.




Gabito Nunes

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017


...canta na profundidade do meu ser,
 na súbita ternura que me umedece o olhar...





Vergílio Ferreira

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

despedida - lindo


"Sabemos mais uns dos outros.

 E é por esse motivo que dizer adeus se torna tão complicado. 

Digamos, então, que nada se perderá.

 Pelo menos, dentro da gente."






Guimarães Rosa

um buraco na noite

subitamente invadido por um anjo




Alejandra Pizarnik

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017


hoje, foi-me difícil acordar com predisposição para amar o mundo 

(...)


al berto




...É de uma inocência forte, herdada,

que a vida ainda irá desmanchar e depois refazer.




Guimarães Rosa

domingo, 8 de janeiro de 2017


mais ou menos perfeitos, mais ou menos
geométricos. 

construo sempre mundos
à altura dos piores pesadelos




Amalia Bautista


eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim,
 te procuram.



Herberto Helder

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017


É Junho? É Setembro?
É um dia
em que estou carregado de ti
ou de frutos,
e tropeço na luz, como um cego,
a procurar-te.



Eugénio de Andrade

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017


...E nada será teu senão um ir até onde não há onde...





Alejandra Pizarnik

terça-feira, 3 de janeiro de 2017


Só vivendo sobre a mudança se podia evitar a dor, só contornando a monstruosa perfeição do tempo se podia vencê-lo. 
Assim pensava, e enganei-me, porque o tempo não é pensável. 
Concentrei-me em deixar de ser para poder ser tudo, em esquecer para dominar a existência. 
Eu sou o tempo; sou nada, o nada veloz e imóvel que molda o corpo do tempo. 
Deixar de ser é ainda acatar as regras implacáveis do ser. 
Estou esgotado do correr contra a dor, contra a memória, contra a infância, contra o amor e o ódio. 
Criei uma meta de tranquilidade que se afasta tanto mais quanto mais corro para ela. 
Não há paz no instante, e eu vivo de instante para instante. Começo a temer que a paz se alimente do sangue da paixão de que abjurei. 






Inês Pedrosa

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017


Fala de mim como uma vibração de pássaros que tivessem desparecido e regressassem;

fala de mim com lábios que todavia correspondem à doçura de umas pálpebra.

Que farias tu se a tua memória estivesse cheia de esquecimento?

Todas as coisas são transparentes: cessam as escrituras e cai chuva dentro dos meus olhos.



Os nossos lábios envelheceram em palavras incompreensíveis.






Antonio Gamoneda

‘Cubra-nos com Teu Manto, oh Mãe’...

‘Cubra-nos com Teu Manto, oh Mãe’...  Quantas frases mal pronunciadas, sussurradas, cheias de uma pressa, de apelo e de fé elevei ...