E agora eu sou os meus sapatos. 

Tenho um par de sapatos dentro de mim. 

Um dois, dois um... sapatos dentro de mim.

Era uma vez eu dentro de uns sapatos, fora e dentro de mim.

Era uma vez duas de mim – uma sentindo este ruído na pele como peixe monstruoso, a outra, sentada, observando os sapatos,usurpando aconchego à cadeira. 

Distraem, prudentes, os sapatos,dançam em meus pés de sabão, evadindo-se de um funeral descalço; brincam, perversos, em voo contrário à amputação; movem-se sedutores, como gatos invisíveis, furtando-me a audição.

Oiço-me no vulto das frases, surda do outro.

Era uma vez eu dentro de mim. 

Era uma vez os meus sapatos.



Ana Marques Gastão
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Tudo é vário. Temporário. Efêmero. Nunca somos, sempre estamos!