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Mostrando postagens de Junho, 2017
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Tu, que não conheço ainda, ou imagino que não conheço, ajuda-me a ficar
Ocupo pouco espaço, quase não faço barulho, nunca grito, não incomodo ninguém. 
Leva-me contigo e ajuda-me a ficar.
Tenho a ternura simples mas aos nós. 
Como as tuas unhas são mais compridas do que as minhas desata-me isto tudo. 
Mãos impregnadas de nuvens, ossos suaves como o leite,vagarosos, certeiros.
 É bom nascer no instante em que o ar é mais frio do que a água.
Trouxe-o aqui no bolso para ti. 
Há-de haver, nalgum sítio, a minha última casa.




António Lobo Antunes
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procurar o lugar que se esquiva, habituar-me à contínua fuga do mundo,
permitir em mim o sítio onde a palavra se apagou, repousar nele como quem encontra a serenidade na desolação,
perder, perder cada vez mais até ao indizível, não falar, não escrever, para enfim recomeçar:
a estrada é a espera de um nome.



Rui Nunes
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E por fim chega uma altura em que uma pessoa pergunta: "que raio fiz eu?"(…)
Grande parte da vida é tão chata que nem merece discussão, e é chata em todas as idades. 
Quando mudamos de marca de cigarro, nos mudamos para um novo bairro, assinamos um novo jornal, nos apaixonamos e desapaixonamos, estamos a protestar, de modos ao mesmo tempo frívolos e profundos, contra a maçada que nunca se dissolve da vida de todos os dias. 
Infelizmente, um espelho é tão traiçoeiro quanto outro, e a dado momento reflete em cada aventura o mesmo rosto insatisfeito, então quando ela pergunta que raio fiz eu?, na verdade quer dizer o que é que eu estou a fazer?, que é o que habitualmente se diz.



Truman Capote
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- Por que é que julgas que eu nunca choro? 
- Tu não morres o suficiente para poder chorar. 


Jack Kerouac
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E agora eu sou os meus sapatos. 
Tenho um par de sapatos dentro de mim. 
Um dois, dois um... sapatos dentro de mim.
Era uma vez eu dentro de uns sapatos, fora e dentro de mim.
Era uma vez duas de mim – uma sentindo este ruído na pele como peixe monstruoso, a outra, sentada, observando os sapatos,usurpando aconchego à cadeira. 
Distraem, prudentes, os sapatos,dançam em meus pés de sabão, evadindo-se de um funeral descalço; brincam, perversos, em voo contrário à amputação; movem-se sedutores, como gatos invisíveis, furtando-me a audição.
Oiço-me no vulto das frases, surda do outro.
Era uma vez eu dentro de mim. 
Era uma vez os meus sapatos.


Ana Marques Gastão
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Quero que se foda o sublime. 

A minuciosa construção do absoluto literário.  Assim sem emendas e em rigoroso vernáculo, parece-me mais exato. 

Quero que se foda o sublime (desculpem-me a repetição). 

Prefiro portas fechadas, casas destruídas, chaves de pouco ou nenhum uso para gestos de pouca ou nenhuma glória que são o absoluto onde me posso sentar para beber mais um copo deste vinho que te pinta os lábios e te acende nos olhos esse fulgor de luz, esse pulsar de salto, onde me lanço para voltar ou não voltar, mas ter cumprido do sangue o impulso.

 Quero que se foda o sublime. 

Estou a falar contigo, a viver contigo, a morrer contigo.  Estou a dizer-te ama comigo, sofre comigo, morre comigo um pouco mais devagar.




Jorge Roque
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E tem a noite nos olhos, a jovem morena,  e a noite às costas, como uma capa.

Ele corta com violência as cordas, primeiro a dos pés, depois a das mãos quentes com um impaciente sangue. E para terminar solta-lhe o peito.  Sente bater nos dedos o primeiro sopro, como uma onda na margem.


E treme.




Rainer Maria Rilke
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Deixas rasto no meu peito durante horas.  Dou com cabelos teus colados, dias depois, à roupa do meu sorriso. Encontro nos vincos mais longínquos dos meus dedos o cheiro parado do teu olhar tão móvel.  Procuro-te nas esquinas dos instantes que passam.  Reconheço-te no vinco que a ternura deixa na carne do peito, do meu olhar, aquele que deito para longe, para outra esquina, de onde recebo mensagens de outro olhar igualmente teu, igualmente meu, reflectido na montra de uma loja do nosso sono.  Deslizo.  Deito-me sobre as lembranças.  (...)  E procuro-te sempre, na ausência da carne que os dias me traçam na pele.  E depois na presença eu ... presença tu...




Mia Couto
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Havia, enquanto recordava,  uma pequena ferida na sua voz: 
em nenhum lugar achara ainda o nome da sua casa.



Maria do Rosário Pedreira

estes são os nomes das coisas que deixaste

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lê, estes são os nomes das coisas que deixaste 
– eu, livros, o teu perfume espalhado pelo quarto; sonhos pela metade e dor em dobro, beijos por todo o corpo 
como cortes profundos que nunca vão sarar;



Maria do Rosario Pedreira
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"Comecei uma listinha de sentimentos dos quais não sei o nome.  Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto - como se chama o que sinto?  A saudade que se tem de pessoa de quem a gente não gosta mais, essa mágoa e esse rancor - como se chama?  Estar ocupada - e de repente parar por ter sido tomada por uma súbita desocupação desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu?"





Clarice Lispector
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"pára de chorar

carrega no batom 

abusa do verniz 

põe os pontos nos Is"





Rui Veloso
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para onde estamos indo?
estamos indo sempre para casa 

...



Raduan Nassar
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O que te direi?
Te direi os instantes.
Exorbito-me e só então é que existo e de um modo febril.
Que febre: conseguirei um dia parar de viver?
Ai de mim que tanto morro.
Sigo o tortuoso caminho das raízes rebentando a terra, tenho por dom a paixão, na queimada de tronco seco contorço-me às labaredas.
À duração de minha existência dou uma significação oculta que me ultrapassa.
Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios. 






Clarice Lispector
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não,  não afastes a boca da minha orelha.
derrama dentro dela aquilo que não consegues dizer em voz alta.
e eu digo:
- as tuas mãos queimam-me a fala.
tu sorris, dizes:
- vem , sem medo, pela aridez do meu corpo.
no fundo de mim existe um poço onde guardo a tua imagem.
 é tempo de te devolver. 
é tempo de te reconheceres nela.



Al Berto
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Estranha sensação a angústia: 
sente-se, no ritmo do coração, que se respira mal, como se se respirasse com o coração.




André Malraux
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Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi verdade - que não amei ninguém depois de ti nem o meu corpo procurou nunca mais outro incêndio que não fosse a memória de um instante junto do teu corpo; e que deixei de ler quando partiste por não suportar as palavras maiores longe da tua boca; e que tranquei os livros na despensa e tranquei a despensa, acreditando que, se não me alimentasse, acabaria por sofrer de uma doença menor do que a saudade, mas a que os outros, pelo menos, não chamariam loucura.
 Se alguém me perguntar, direi que foi assim, e não de outra maneira, como alguns parecem supor - que permiti, bem sei, que outros homens me amassem e me aquecessem a cama, mas em troca lhes dei apenas um nome diferente do que tinham e os vi partir desesperados a meio da noite sem sentir maior dor que a de saber que, afinal, também eles não existiam para além de ti; e que no dia seguinte dava comigo a trautear sem querer essa canção que amavas (como se ela, sim, se tivesse deitado …
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Respirei fundo e escutei o velho e orgulhoso som do meu coração. 
Eu sou, eu sou, eu sou.


Sylvia Plath
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Tornamo-nos impermeáveis na solidão:
dentro da pele não viaja ninguém;
fora da pele ninguém nos vê passar.


Jesús Jiménez Domínguez
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não sei bem se continuo apaixonado, não sei bem se vale a pena continuar apaixonado por ti.
não sei. 
vejo-te e todo eu tremo. todo o meu corpo é um lamento, e pede socorro ao teu olhar,  às tuas mãos. 
a um simples sorriso. 
uma palavra que me descanse. 


Al Berto
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“Os homens dizem que a vida é curta, 
e eu vejo que eles se esforçam para
 a tornar assim.”



— Jean Jacques Rousseau
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Que o amor é como o mar: 
sendo infinito
espera ainda em outra água se completar...




(Mia Couto )

Filho é um ser que nos foi emprestado para um curso intensivo de como amar alguém...

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“Filho é um ser que nos foi emprestado para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isso mesmo!  Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo o tipo de dor, principalmente o da incerteza de agir corretamente e do medo de perder algo tão amado.  Perder? Como?  Não é nosso, recordam-se?  Foi apenas um empréstimo.”



José Saramago
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Sou a tua inocência. Restaura a tua loucura.

Elizabeth Azcona Cranwell
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Eu podia ter-te amado com outras palavras,  com outro timbre de cristal.  Mas ocultei a ternura nos bosques que se  fecham sobre o coração. 
Morei no silêncio; apaguei as claras fontes  de uma torturada voz.  E o brilho da faca, o seu metal de esplendoroso alcance, encontrou o pulso e moveu-se,  docemente



José Agostinho Baptista
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Na boca reacendo uma navalha de lume para sufocar a solidão,  e as palavras que já nada podem revelar, nem ajudar. 



Al Berto
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Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista que nunca te pareces com o teu retrato
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

 Mario Quintana.