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Mostrando postagens de Outubro, 2016

Caí no silêncio há vários dias.

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Caí no silêncio há vários dias. 
Quero falar-te das horas incandescentes que antecedem a noite e não sei como fazê-lo. 
Às vezes penso que vou encontrar-te na rua mais improvável, que nos sentamos diante do rio e ficamos a trocar pedaços de coisas subitamente importantes: a tua solidão, por exemplo. 
Mas depois, virando a esquina, todas as esquinas de todos os dias, esperam-me apenas as aves que ninguém sabe de onde partiram.



Vasco Gato
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“Temos dentro de nós, uma reserva insuspeita de força que surge quando a vida nos põe à prova…”
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Isabel Allende
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“Os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos. Os instantes do teu sorriso eram eternos. Os instantes do teu corpo de luz eram eternos. Foste eterna até ao fim.”


José Luís Peixoto
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por ahora las palabras son marcas que los dedos dejan en la piel
cuando ya no hay restos de la voz en el habla en el momento en que con lentitud escribo el silencio en el cuerpo
como movimiento imperfecto de la respiración acepto lágrimas 



maria sousa
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a distância do meu corpo ao teu grito corresponde à do teu sopro ao meu ouvido
eis a anatomia do silêncio


Teresa Balté
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para morrer, qualquer lugar, qualquer corpo, e qualquer boca me serve.


António Boto

Queimar tudo.

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Queimar tudo. 
Alugar uma casa num lugar sem história  na história da minha vida, um lugar de postais antigos,  desbotados, e do passado guardar apenas uma urna de cinzas, no compartimento por baixo do lava-louças. 
Ver filmes sem mérito, ler livros sem arte, ouvir óperas cômicas e 'inêxitos' impopulares e anacrônicos. 
Tentar,  sem sucesso, pescar, e ir ao mercado comprar peixe  miúdo e roupas com defeitos às ciganas. 
Ser anônimo por fora e por dentro,  criança que não se conhece nem quer conhecer e que procura apenas o início e o fim dum carreiro de formigas, revelação suficiente para quem ainda não desperdiçou a vida a perscrutar  os gloriosos fundos de um oceano de merda. 
Beber pouco. 
Foder com a moderação  que a improbabilidade do diálogo impõe. 
Emular os pioneiros americanos, pecadores em busca de recomeço e horizonte,  longe das catedrais e de si próprios, longe dos quiromantes e das sibilas e, sobretudo, da inexorável morte do amor. 



Miguel Martins (Desvão)
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Às vezes, na estranha tentativa de nos defendermos da suposta visita da dor, soltamos os cães.  Apagamos as luzes.  Fechamos as cortinas.  Trancamos as portas com chaves, cadeados e medos.  Ficamos quietinhos, poucos movimentos, nesse lugar escuro e pouco arejado, pra vida não desconfiar que estamos em casa.
A encrenca é que, ao nos protegermos tanto da possibilidade da dor, acabamos nos protegendo também da possibilidade de lindas alegrias.
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Ana Jácomo

Das manhãs

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Apenas levarei a tua voz

Despovoada
Sem promessas sem barcos e sem casas

Não levarei o orvalho das ameias Não levarei o pulso das ramadas

Da tua voz

Levarei os sítios das mimosas Apenas os sítios das mimosas

As pedras As nuvens O teu canto

Levarei manhãs, E madrugadas




Daniel Faria

"Porque não estás aqui?"

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"Porque não estás aqui?"
Era a sua pergunta sem destinatário concreto ou conhecido, feita ao vazio e no vazio, na consciência de que nunca ninguém estaria ali, de que ali nunca haveria ninguém para vir ter com ela num tempo menos efémero, que a sua ruptura da noite teria de se fazer como até então, ao sabor das fomes repentinas e de encontros avulsos, de insatisfações permanentes e de aventuras sem compromisso, de fulgores precários e de breves epifanias, como as do fogo-de-artificio a enredarem-se no fio de Ariane interminável que ela assim desenrolava no seu próprio labirinto e nunca a nada a poderia prendê-la e nunca ninguém haveria de indicar qualquer espécie de caminho que lhe dissesse respeito.



Vasco Graça Moura
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Desejava um silêncio perfeito.  Por isso falo. 





Alejandra Pizarnik
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pequeníssimos recados escritos 
à pressa  amachucados nos dedos 




Al Berto

Sou eu,

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Sou eu, 
sou eu que não durmo contigo nos sentidos


Eugénio de Andrade

Despedidas...........

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É nas linhas das mãos que os deuses escrevem  os mais belos romances. 
Nas nossas, porém, somente elaboraram um divertimento, um esboço, um rascunho,  nem sequer literatura.







Maria do Rosário Pedreira
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comecei dezenas de histórias e não terminei nenhuma, não sei para onde vão as minhas personagens porque começam a falar e logo se calam. no papel sucede-me o mesmo que fora dele: a minha vida é um punhado de começos suspensos




Miriam Reyes
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Um a um esqueci os motivos porque vim




José Tolentino Mendonça
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Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. 
E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios.
 Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. 
Vivo mais porque vivo maior.



- Bernardo Soares

O que conta é o inferno da história única.

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O que conta não é a manifestação do desejo, da tentativa amorosa.  O que conta é o inferno da história única.  Nada a substitui, nem uma segunda história.  Nem a mentira.

Marguerite Duras
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"Os amigos desaparecem no momento exato em que você precisa deles.  O mundo te machuca.  As pessoas te empurram nas filas, dentro dos ônibus, nas esquinas.  Tudo grita na sua cara que você não vale absolutamente nada.  Quando olho para você, quando olho para mim, não posso evitar de pensar que o homem é apenas um animal que não deu muito certo."


Caio Fernando Abreu

SangrO

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Mais depressa estaria pronta a seguir-te do que a cuidar-te da sepultura, pois preferiria enterrar-me contigo a preparar-te a campa. 
Em ti teria perdido a vida, sem ti não poderia ... 





Carta de amor de Heloísa a Abelardo ...
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Nos dias nevoentos fecho as janelas, acendo a luz forte e deito-me no tapete.  Leio ou penso.  Ou então fumo, enquanto as camadas de silêncio se sobrepõem, e as mais pesadas descem e as mais leves se tornam pesadas, até ser impossível destruir o silêncio. 




Herberto Helder
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Saudade de um beija-flor Lembranças de um antigo amor O dia amanheceu tão lindo Eu durmo e acordo sorrindo



Flor e O Beija Flor


Marília Mendonça
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A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peitO 







Paul Éluard
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tão nu de ti como as árvores das estrelas




Pedro Sena-Lino
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Mal consigo respirar.
- Tens um pouco de cinzas no coração, disse-me.  Aquilo por que passamos nunca se consuma por completo. 
Um pouco de cinzas no coração não nos deixa respirar.






Pascal Quignard

Apaga a luz quando entrares....

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Apaga a luz quando entrares
e vem ver se em mim ainda se cheira o mar



Renata Correia Botelho
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Eu não sou dessas mulheres incapazes de amor e ternura.  Eu sei o que é coragem e sangue, embora odeie o sacrifício e me repugne  a vaidade que nasce da violência.  Quero ser mulher de um mercenário,  de um poeta ou de um mártir, é igual. Eu sei fitar os olhos dos homens,  sei quem merece a minha ternura. 




Amalia Bautista
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"Eu passeio por tua estrada quando você não está, porque não quero mais vê-lo ou tocá-lo. Eu passeio por tua casa quando você não está, mas não vasculho tuas gavetas, teus segredos, a intimidade repousada no silêncio dos teus bolsos, dos armários: contemplo os móveis, os livros, os discos e tudo o que está exposto__só quero a experiência.
 Eu passeio por tuas coisas quando você não está, pra aprender com tua casa, tua estrada e o teu mundo a suportar a tua ausência."



Marla de Queiroz
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Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
[...]



Miguel Torga

Me desmancho quando encosto em você, êh iêh êh...

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me encaixo no teu cheiro
e ali me deixo inteiro 


eu amei te ver




Tiago Iorc


**não vou voltar tão cedo, mas vou voltar pq eu amei te ver...
eu amei te ver...
eu amei te ver...




eu amei te ver....



....
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e quando me escrevias, era tão belo o que me contavas que me despia para ler as tuas cartas. 
só nua eu te podia ler. 
porque te recebia não em meus olhos, mas em todo o meu corpo, linha por linha, poro por poro






mia couto,
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"(...)  numa daquelas noites boas eu disse-lhe que era destes pequenos beijos e daqueles gemidos sussurros que se faziam os grandes amores e as grandes  alegrias."


António Alçada Baptista
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Hoje, sem qualquer pedido de explicação ao universo, guardo com ternura uma oração, que me abraça enquanto vos escrevo estas palavras:‘somos aquilo que nos acontece’.
No mesmo tipo de amor e dignidade de quem a partilhou comigo de mãos vazias devolvo-as devagar ao mar, na lembrança de um diamante em bruto. 

E hoje, ao escrever estas linhas, transmuto as palavras, como uma miúda guardaria um tesouro dentro de um búzio de verão: ‘somos o que vivemos’.



Sancha Trindade
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Não sei onde estás, se falas ou se apenas olhas o horizonte, que pode ser apenas o de uma parede de quarto. 
Mas sei que uma sombra se demora contigo, quando me pergunto onde estás: uma inquietação que atravessa o espaço entre mim e ti, e te rouba as certezas de hoje, como a mim me dá este poema.



Nuno Júdice
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“Somos sobreviventes. 
A vida que quisemos, não a tivemos. 
Aquela que temos, não a escolhemos. 
Veio-se-nos. 
Faltou-nos só uma vocação, essa para vivermos a única vida que realmente nos importava. 
Todas as outras permanecem para sempre marcadas por um selo de morte e insuficiência. 
O tempo que resta, passamo-lo a tentar digerir esse monstruoso fracasso, a evitar transformar-nos a nós próprios em monstros de ressentimento. 
Não, nós não queríamos ser humanos. 
E agora, não queremos outra coisa, à falta daquilo em que não fomos capazes de nos tornar.”



Bénédict Houart
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Só a noite chegará atrasada à festa do teu corpo no meu corpo.  Da tua voz na minha voz.  Das tuas mãos nas minhas mãos.  Da tua pele na minha pele. E nem mesmo ela conseguirá aperceber-se de qual de nós é o sorriso que quase a ilumina.  Porque as nossas bocas permanecerão coladas.


Joaquim Pessoa,