Porque te escolho, neste sussurro sem retorno? 
Porque te quero no meu sono, se iluminaste sobretudo o que não fui? 

Morreste-me antes que eu morresse – e não consigo morrer sem ti. 
Nunca consegui. 
Todos os dias da minha vida estive contigo – como se todas as amizades anteriores fossem só o caminho para chegar a ti, como se todas as amizades posteriores fossem apenas a ausência de ti. 

Mais delicadas, mais ritmadas, mais claras – menos tu.


Arrumei os amores, é a primeira regra da vida – saber arquivá-los, entendê-los, contá-los, esquecê-los. 
Mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha. A amizade só se perde por traição – como a pátria. Num campo de batalha, num terreno de operações. 
Não há explicações para o desaparecimento do desejo, última e única lição do mais extraordinário amor. Mas quando o amor nasce protegido da erosão do corpo, apenas perfume, contorno, coreografado em redor dos arco-íris dessa animada esperança a que chamamos alma – porque se esfuma?

Como é que, de um dia para o outro, a tua voz deixou de me procurar, e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua?





PEDROSA, Inês.
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