[…] 
A canção é só isso: um amor que se consome em chama entre o instante da voz e a eternidade do silêncio.
Outros cantadores, quando atuam em público, se trajam de enfeites e 'reluzências'.
 Mas, em meu caso, cantar é coisa tão maior que me entrego assim pequenininha. 
Dessa maneira, menos que mínima, me torno sombra, desenhável segundo tonalidades da música.
Cantar, dizem, é um afastamento da morte.
 A voz suspende o passo da morte e, em volta, tudo se torna pegada da vida.
 Dizem, mas, para mim, a voz serve-me para outra finalidade: cantando eu convoco um certo homem.
 Era um apanhador de pérolas, vasculhador de maresias.
 Esse homem acendeu a minha vida e ainda hoje eu sigo por iluminação desse sentimento. 
O amor, agora sei, é a terra e o mar se inundando mutuamente.
Amei esse peroleiro tanto até dele perder memória.
 Lembro apenas de quanto estive viva. 
Minha vida se tornava tão densa que o tempo sofria enfarte, coagulado de felicidade. 
Só esse homem servia meu litoral, todas vivências que eu tivera eram ondas que nele desmaiavam. 
Contudo estou fadada apenas para instantes. 
Nunca provei felicidade que não fosse em taça que, logo após o lábio, se estilhaça. 
Sempre aspirei ser árvore. 
Da árvore serei apenas luar, a breve crença de claridade.[…]

Mia Couto
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Tudo é vário. Temporário. Efêmero. Nunca somos, sempre estamos!