domingo, 30 de agosto de 2015


Sinto o crepúsculo nas minhas mãos. 
Chega através do loureiro doente. 
Não quero pensar, nem ser amado, nem ser feliz, nem recordar.
Só quero sentir esta luz nas minhas mãos e desconhecer todos os rostos e que as canções deixem de pesar no meu coração e que os pássaros passem diante dos meus olhos e eu não note que se foram.




Antonio Gamoneda

Mastigo o pó de todos os cravos que me deste,
quero-os sempre vermelhos ao rés da boca.




Rosa Alice Branco

Esta é a pressão de uma mão tímida, este é o aroma dos cabelos que esvoaçam,
Este é o roçar dos meus lábios nos teus, este é o murmúrio do desejo (…)



Walt Whitman

O amor, tão nobre, tão denso, tão intenso, acaba. 

Rasga a gente por dentro, faz um corte profundo que vai do peito até a virilha, o amor se encerra bruscamente porque de repente uma terceira pessoa surgiu ou simplesmente porque não há mais interesse ou atração, sei lá, vá saber o que interrompe um sentimento, é mistério indecifrável. 

Mas o amor termina, mal-agradecido, termina, e termina só de um lado, nunca se encerra em dois corações ao mesmo tempo, desacelera um antes do outro, e vai um pouco de dor pra cada canto. 

Dói em quem tomou a iniciativa de romper, porque romper não é fácil, quebrar rotinas é sempre traumático. 

Além do amor existe a amizade que permanece e a presença com que se acostuma, romper um amor não é bobagem, é fato de grande responsabilidade, é uma ferida que se abre no corpo do outro, no afeto do outro, e em si próprio, ainda que com menos gravidade.




— Martha Medeiros.

sábado, 22 de agosto de 2015


"Queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos"



Ana Paula Inácio


Às vezes naufragar é mais prudente do que continuar remando. 
Na vida nem todas as coisas são superáveis, possíveis, continuáveis. 
Uma perda, um final, uma agressão, uma dor, um trauma. 
Nem sempre vale a pena prosseguir. 
Saber o momento de largar as armas, soltar a corda, declarar cansaço e desistência. 
Continuar no mais das vezes equivale a apostar em um jogo que inevitavelmente iremos perder: o tempo, o espaço, a coerência, o amor próprio, outras alturas. 
Às vezes é necessário desistir, sentir o gosto da derrota, sem pensar o que se poderia fazer mais. 
O problema é que pensamos. 
O ruim é saber o momento correto. 
Precisamos saber o imenso de mar em que moramos e desmoronamos. 

Se navegar é preciso, naufragar é essencial.






Guilherme Antune




***Lindo!!!!!!!

Creio hoje mais do que nunca é preciso procurar um livro ainda que de uma só grande página: precisamos procurar fragmentos, lascas, unhas dos dedos dos pés, tudo quanto contenha minério, tudo quanto seja capaz de ressuscitar o corpo e a alma. 







Henry Miller
Tantas vezes pensamos ter chegado, tantas vezes é preciso ir além.



Fernando Pessoa

quinta-feira, 20 de agosto de 2015


A vida, como um comentário de outra coisa que não alcançamos, e que está aí ao alcance do salto que não demos.

A vida, um balé sobre um tema histórico, uma história sobre um fato vivido, um fato vivido sobre um fato real.

A vida, fotografia do número, possessão nas trevas (mulher, monstro?), a vida, proxeneta da morte, esplêndido baralho, tarô de claves esquecidas que umas mãos reumáticas rebaixam a uma triste paciência solitária.




 Julio Cortázar

domingo, 16 de agosto de 2015


Anota num papel e cola na geladeira: desapegue dos detalhes
Gargalhe. 
Não se importe. 
Seja egoísta. 
Confie em você. 
Não fique com medo antes que aconteça. 
E sempre:
 cuidado com quem se importa de verdade.


Tati Bernardi.

sábado, 15 de agosto de 2015

sexta-feira, 14 de agosto de 2015


Os lábios.
Distante, arrefecida chama.
Não só os lábios, também as estrelas
são distantes.
E os bosques. 
E as nascentes.
Também as nascentes são distantes.
As nascentes onde os lábios, 
onde as estrelas bebem.. 
Só o deserto é próximo, 
só o deserto.


Eugénio de Andrade


Mas estou cansado.
 Os olhos fecham-se-me com o peso das paixões desfeitas.
Imagens, imagens que se colam ao interior das pálpebras - imagens de neve e de miséria, de cidades, de fome e de violência, de sangue, de aquedutos, de esperma, de barcos, de comboios, de gritos...
talvez uma voz... o desejo de um sol impiedoso, sobretudo enquanto dormia.
.
E embarquei num cargueiro, desertei em Java, pensei mesmo construir uma casa
Mas não foi possível.
.
Ainda vejo aquelas árvores cobertas de ossos luminosos, e a duna incendiada, o deserto onde posso continuar a reconstruir o universo.
.
Escavo no coração um poço de sal, para dar de beber ao viajante que fui.
Deixo o vento arrastar consigo a infindável caravana de ilusões.
.
E digo: que tudo se afogue na gordura das manhãs, que tudo silencie... e uma língua de fogo atinja os livros que não escreverei.
.
.
.
Al Berto

domingo, 9 de agosto de 2015


Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios.
toda a música é minha.

Eugénio de Andrade

"Deus é capaz de transformar toda a dor, todo o desamparo, toda a mágoa e todas as coisas ruins em algo que jamais poderiam ter sido, ícones e monumentos de graça e amor.

 É profundamente misterioso como as feridas e cicatrizes podem se tornar preciosidades, ou como uma cruz implacável e aterrorizante pode se tornar o maior símbolo de um amor inabalável."




William P. Young,


“E foi assim que eu descobri
Que Meu Pai com o seu jeito finito de ser Deus
Revela-me Deus com seu
Jeito infinito de ser homem.” 



Pe. Fábio de Melo


**E a cada dia essa frase do Pe. Fábio define mais Meu Pai. 
Agradeço a Deus, Agradeço à Ti...
Já não sei inventar os Domingos.
Pode-se inventar tudo menos os Domingos.


Rosa Alice Branco

Quantas vidas se fariam com o que a nossa não utilizou.


Vergílio Ferreira

sábado, 8 de agosto de 2015


"...o maço quase vazio de cigarros, duas garrafas vazias de coca-cola, o cinzeiro cheio de pontas, essa música indefinida machucando por dentro, como se estivesse desde sempre aqui, escorregando devagar (...) já mudei mil vezes de posição na cadeira, não encontro o jeito, seria necessário um jeito específico de esperar, é medo o que eu tenho? (...) começa a anoitecer, todos os relógios estão parados, não sei se é ontem, se hoje ou amanhã, se é sempre, se nunca mais, estou solta aqui, completamente só, não há relógios e o tempo avança liberto, sem fronteiras nem limitações..."


Caio Fernando Abreu



*porque a semana foi de saudade boa....
**sei que meu coração escolheria duas vezes você...

Tinha um jeito singular de fechar os olhos quando experimentava emoção bonita, coisa de segundos e coisa imensa. 

Era como se os olhos quisessem segurar a lindeza do instante um bocadinho, o suficiente para levá-lo até o lugar onde o seu sabor nunca mais poderia ser perdido. 

Eu via, olhos do coração abertos, e nunca mais perdi de vista o sabor desse detalhe. 

Porque quem ama vê miudezas com olhar suficiente pra nunca mais se perderem.


Ana Jácomo

sexta-feira, 7 de agosto de 2015



Intimidade é coisa rara e prescinde de instruções. 
Intimidade é você se sentir tão à vontade com outra pessoa como se estivesse sozinho. 
É não precisar contemporizar, atuar, seduzir. 
É conseguir ir pra cama sem escovar os dentes, é esquecer de fechar as janelas, é compartilhar com alguém um estado de inconsciência. 
Dormir juntos é muito mais íntimo que sexo.



[Martha Medeiros]

um vazio dentro de mim onde um dia tive o coração.


— George R. R. Martin

domingo, 2 de agosto de 2015


Somos a carne de um fruto atordoado. 
Somos o dia aparatoso nas escadas, depois navios ancorados carregados de bruma.
Bebemos o sangue dos poentes como animais incrédulos
de morrer.

Quando tens frio, risco-me como fósforo na tua pele 
ondulada. 
E dá-se o acidente nas gavetas.

As tuas pernas afogam-se em poços de água, eu tenho os bra-
ços engessados numa parede violenta 
- porém beijamo-nos na boca lenta da madrugada.


O meu nome acordou povoado pelo teu nome.





Vasco Gato

[…]

 a primeira condição para mudar a realidade é conhecê-la. 


Eduardo Galeano

sábado, 1 de agosto de 2015

Prece...

Abençoa-me para eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma, pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.





Clarice Lispector 

**Amém!
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