Eu vi.
 Ela não me viu. 
Não via ninguém, acho. 
Tão voltada para sua própria dor que estava, também, meio cega. 
Via pra dentro: charco, arame farpado, grades.
 Ninguém parou. 
Eu, também, não. 
Não era um espetáculo imperdível, não era uma dor reluzente de neon, não estava enquadrada ou decepada.
 Era uma dor sujinha como lençol usado por um mês, sem lavar, pobrinha como buraco na sola do sapato. 
Furo na meia, camada casca-grossa da vida. 
Sem o recurso dessas benditas levezas nossas de cada dia — uma dúzia de rosas, uma música de Caetano, uma caixa de figos. 
Comecei a emergir. 
Comparada à dor ela, que ridícula a minha.


— Caio Fernando Abreu
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Tudo é vário. Temporário. Efêmero. Nunca somos, sempre estamos!