de uma solidão


(...) 
e topo os olhos da mulher de pé à minha frente, a apertar contra o peito o saco de plástico como quem embala devagar um filho doente; e entendi que a solidão, disse ele no automóvel deserto a caminho de Lisboa, não é a marca de batom num copo num escritório vazio iluminado pelas persianas que a amanhecem, nem a saída de um bar onde deixamos talvez, pendurada na cadeira, a pele de cobra da alegria postiça que se destina a disfarçar a inquietação e o medo:

a solidão são as pessoas de pé à minha frente e os seus gestos de pássaros feridos, os seus gestos úmidos e meigos que parecem arrastar-se, como animais moribundos, à procura de uma ajuda impossível.



António Lobo Antunes
Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Tudo é vário. Temporário. Efêmero. Nunca somos, sempre estamos!