quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Doce, doce Manoel de Barros


E com o seu olhar furado de nascentes
O menino podia ver até a cor das vogais -
como o poeta Rimbaud viu.
Contou que viu a tarde latejar de andorinhas.
E viu a garça pousada na solidão de uma pedra.
E viu outro lagarto que lambia o lado azul do
silêncio


 Manoel de Barros

Amar…


"Amar…
É coisa de morrer e de
matar mas tem som
de sorriso."



Hilda Hilst

não superei, mas tive que aceitar




Querido John

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013




"O que consome meu corpo moço; 
FoMe ou sOlidãO?"



Zeca Baleiro


"Tira esse azedume do meu peito. 
E, com respeito, trate minha dor."


 Los Hermanos

Pra não fazer parte disso, eu quis morrer, quis ir embora, quis perder para sempre a memória, estas memórias de sangue e rosas, drogas e arame farpado, príncipes e panos indianos, roubos e fadas, lixo e purpurina



 Caio Fernando Abreu

cheiro dos amores contrariados,


Era inevitável, o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados



Gabriel Garcia Marquez


Quando conseguiu enxugar a mágoa, a vida voltou a fluir. Que mágoa é água que não leva. Que mágoa é água que não lava. Que mágoa é água estagnada...


Ana Jácomo


Os anjos ainda viajam na terra,
Com as asas escondidas…



Eça de Queiroz

Traça o sinal-da-cruz na fronte, e anda!



Rasga as bordas da saia, e anda. A vida, por vezes, dança, tão nua, entre filós. E muda. Dos passos: caminha de costas pro tempo, escasso. Ramo de trigo entre os seios pra lembrar do que farta. Faz promessas em dia de lua, cheia. Faz colar de lentilhas. Borda de azul a saia branca, esse desejo de ter oceano nas ancas. Flores do campo nas mãos, passos firmes e lentos. Trovões rasgam o véu do tempo. Presentes passado e futuro. Relógio de sol. Im-pulsos. Risca em vermelhos e laranjas a parede branca descascada. Põe fogo-artifício sobre lençóis. Depois improvisa com bambus uma cruz. Acentua sobre as cinzas, as flores. Traça o sinal-da-cruz na fronte. Quarta-feira, cinzas. E lembra que sempre é possível re-começar. Nas mãos: nada, desejos: alguns de alma, e ela escreve areia ao redor das ruínas. Ergue um templo de palavras, sacras. Faz preces. Tece apreços. Lembra sem pudor até inflamar os olhos. Vibra a alma em sol sustenido com sétima. Não traça caminhos, só ascende às estrelas. E espera. O ano rebenta o tempo para deixar sua marca. E ela demarca em seus braços um tempo que não há de passar. Jamais."



Cecília Braga

Ele não podia tocá-la. Ela não podia tocá-lo. Então, sonhavam todas as noites, um com o outro, se abraçavam incansavelmente em uma fantasia surreal; Mentiam para si mesmos que estavam juntos, e por vezes chegavam a acreditar. Não bastava somente sonhar, nem semente viver, mas o que lhes faltava, preenchiam com o insano ato de amar. 



Annd Yawk 


No coração: tantas luas, São Jorges e dragões. O olhar limpo de noite clara. Vôos de flamingos no estômago. De quando você me olha e traça, sem saber, no ar, com o clarão do teu sorriso, uma rosa-dos-ventos. E isso me desterritorializa. Mas, já fiz as minhas preces...



Cecília Braga
Sento-me ao lado das coisas
e bordo toda a noite a minha vida.



Sophia de Mello Breyner

terça-feira, 29 de janeiro de 2013



"O ser humano é um ser completamente abandonado…"



Oscar Niemeyer

AmO chUvA

"às vezes uma chuva molhada é uma coisa boa para escorregar momentos em direção a mim. 
quando uma chuva molhada cai sobre o mundo redondo, as coisas da vida e a vida das coisas encontram-se num quintal vasto."



Ondjaki

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013



sou um pescador sem mar.

dentro do peito não ecoa nenhum nome.



Al Berto



É um fardo aos ombros
o corpo, sem ti.
Até o amarelo
dos girassóis se tornou cruel.
Não invento nada,
na arte de olhar
a luz é cúmplice da pele.



Eugénio de Andrade

(…)
repentinamente
ressoam tímbalos, como se a febre
os fizesse chocar
dentro do seu coração:
contra sua vontade,
um longo hábito levou-a de volta ao circo,
à hora onde todas as noites ela luta
contra o anjo da vertigem.

uma última vez
enche-se daquele cheiro de animal selvagem
que foi o da sua vida,
daquela música enorme e desafinada
como é a do amor.
(…)


Marguerite Yourcenar

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Te vejo dormir



Eu, que não digo
Mas ardo de desejo
Te olho
Te guardo
Te sigo
Te vejo dormir



Chico Buarque

amor é pros guitarristas, católicos e fanáticos por xadrez.



Charles Bukowski


O meu coração conhece cada gesto seu.



Ana Carolina.
Me debruço na varanda e a altura me tonteia.
Sabem o que descobri?
Que a minha alma é feita de água.
Não posso me debruçar tanto.
Senão me entorno e ainda morro vazia, sem gota.


Mia Couto

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013



Como eu gostaria de arrancar a minha pele sem medo 

e mostrar

o meu todo para o outro.”



Hilda Hilst,


a flor do amor tem muitos nomes.



Guimarães Rosa

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

e pedirei à noite:



...e pedirei à noite que me empreste
um farrapo de manto incandescente
de que se veste, agora, para ter-te...


António Franco Alexandre


Não sei se é bom ou mau quando somos esquecidos - alcançamos a meia paz. 

A paz inteira é quando nos esquecemos.



Casimiro de Brito,

Soluços noturnos,


No silêncio das noites soluçam as almas pelas torneiras das pias.”



Mário Quintana

O vento experimenta
o que irá fazer
com sua liberdade...


 João Guimarães Rosa

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013


(quero-te assim

longínquo e doce

terno e ausente)


só posso desejar-te nas palavras



Maria Aurora Carvalho Homem

De que adiantou?



De que serviu ir correr mundo, arrastar, de cidade em cidade, um amor que pesava mais do que mil malas; mostrar a mil homens o teu nome escrito em mil alfabetos e uma estampa do teu rosto que eu julgava feliz? De que me serviu recusar esses mil homens, e os outros mil que fizeram de tudo para eu parar, mil vezes me penteando as pregas do vestido ... cansado de viagens, ou dizendo o seu nome tão bonito em mil línguas que eu nunca entenderia? Porque era apenas atrás de ti que eu corria o mundo, era com a tua voz nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo do amor de cidade em cidade, o teu nome nos meus lábios de cidade em cidade, o teu rosto nos meus olhos durante toda a viagem,
mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.


Maria do Rosário Pedreira

Eu pulo muros de residências privadas e desfalco jardins só pra enfeitar os teus cabelos com rosas vermelhas. Eu arquiteto pessoas, orquestro situações inteiras a minha mente e tenho a sanidade de um louco. Pratico um tal de amor bandido e volta e meia tenho desejos suicidas. E, não menos importante, eu engano multidões, minto e ludibrio. Eu mato e morro por um amor que nem sequer existe. Eu te sufoco com minhas doces alucinações e te afogo em meus malditos poços de falso amor, até teu homicídio. Sim, eu me tornei um criminoso, o vilão da minha própria história… E, bom, me nomear como presidiário, é praticamente uma auto-condenação.



 João Amaral

domingo, 20 de janeiro de 2013

e toco-te



e toco-te

para deixares de ter corpo

e o meu corpo nasce

quando se extingue o teu.



Mia Couto

Outrora eu era daqui,
 e hoje regresso estrangeiro,

Forasteiro do que vejo e ouço,
 velho de mim.

Já vi tudo, ainda o que nunca vi, 
nem o que nunca verei.

Eu reinei no que nunca fui.


 Fernando Pessoa

Diga que ama.


(...) 
Diga que ama.
 Diga o seu conforto por saber que aquela vida e a sua vida se olham amorosamente e têm um lugar de encontro. 
Diga a sua gratidão. 
O seu contentamento. 
A festa que acontece em você toda vez que lembra que o outro existe. E se for muito difícil dizer com palavras, diga de outras maneiras que também possam ser ouvidas.
 Prepare surpresas. 
Borde delicadezas no tecido às vezes áspero das horas.



 Ana Jácomo

"na dobra do papel

guardei sentimentos que só suas mãos

podem ler"




Geraldo de Barros

vez em quando: te sinto, te sei..


 você era a única pessoa lá de fora que entrava aqui dentro de vez em quando.


Caio F. de Abreu 


Então somos amigos confessos. Nas confidências nos apoiamos e nos curamos das feridas impostas pela saudade do que vivemos ou do que ainda sonhamos viver. Tu me acolhes em tua sombra e me aquece as lembranças de quando eu era menino livre pelas calçadas de casas e cumpria o cômodo trajeto até a escola. Eu te devo a ausência de lágrimas de mais um dia. A falta de dores no peito e nos ombros, pois foram expulsas pelo teu carinho. Eu tento brandamente mostrar a riqueza que és. A pureza que escondes nesse teu olhar de sol quando se põe. Eu timidamente me aproximo de ti e espero. Espero que sejamos descobertos pelo destino teimoso. Ou pelos anjos do amor em suas nuvens. Pois somos amigos. Doces amigos da ânsia perpétua de um grande amor. Ate que possamos ser libertos da amizade e eu caminhe até ti para saciar minha sede de tua boca encarnada.





Leometáfora

domingo:


Não quero fazer drama. 
É mais um domingo infeliz sem você, mais um dia que não alcanço mais aonde vão meus sonhos.



Gabito Nunes

sábado, 19 de janeiro de 2013


"De que adianta falar de motivos?
Às vezes, basta um só, às vezes, nem juntando todos."



José Saramago


*deixando o vento levar 'let it be'




Eu quEro ir Embora


Caetano Veloso
Mas nenhum medo é maior do que aquele que sentimos da vida cheia, da vida vivida a todo peito.



Mia Couto

Pai, faze:


Não, não devia pedir mais vida. 
Por enquanto era perigoso. 
Ajoelhou-se trêmula junto da cama pois era assim que se rezava e disse baixo, severo, triste, gaguejando sua prece com um pouco de pudor: 
alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que eu durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma, pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.



Clarice Lispector

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013



É tão difícil guardar um rio quando ele corre dentro de nós



Jorge de Sousa Braga 
Fica comigo. 
Daqui a nada é noite e as noites custam, a mim custam, sobretudo quando os candeeiros da rua se acendem e as árvores e os prédios fronteiros logo diferentes, quase ninguém na rua, um miúdo com um cão lá ao fundo, uma tristeza parada na tonalidade do silêncio, estes móveis e estes retratos que não me ligam nenhuma, os teus passos na escada, tu no passeio: nem vou à janela olhar, não quero olhar. 
Fica comigo só mais um bocadinho, dez minutos, meia hora, sei lá, o tempo inteiro. 
Mesmo que não fales. 
Mesmo que leias a revista do jornal.
 Mesmo que não me toques. 
Mesmo como se eu não existisse.(…)



António Lobo Antunes

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013



Tu és aquilo que sei sobre a ternura. 
Tu és tudo aquilo que sei. 
Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontramos.



José Luís Peixoto 



outros dizem: 
uma garça! 
e o céu desaba em minha mão



Mia Couto

E aquilo a que assisto sou eu.



Tudo se me evapora. 
A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha imaginação e o que contém, a minha personalidade tudo se me evapora. 
Continuamente sinto que fui outro, que senti outro, que pensei outro. 
Aquilo a que assisto é um espetáculo com outro cenário. 
E aquilo a que assisto sou eu. 


Fernando Pessoa


A intensidade com que se é esmagado não importa,
de fato o que importa é a intensidade que nos resta
depois de sermos esmagados




Gonçalo M. Tavares,

‘Cubra-nos com Teu Manto, oh Mãe’...

‘Cubra-nos com Teu Manto, oh Mãe’...  Quantas frases mal pronunciadas, sussurradas, cheias de uma pressa, de apelo e de fé elevei ...