segunda-feira, 31 de outubro de 2011


Nunca mais nos veremos? Perguntei com a estupidez de quando não há perguntas a fazer. Mas ao mesmo tempo, por baixo da minha insensatez, eu sentia o impulso absurdo de recuperar uma irrealidade perdida. Nunca mais? E imprevistamente era aí que eu repousava, na tua face, na imagem final do meu desassossego.




Vergilio Ferreira

Senta-te ao sol. 


Abdica. 


E sê rei de ti próprio.




Fernando Pessoa

domingo, 30 de outubro de 2011


"...Faz dessa noite uma eterna madrugada 


E só desperte quando a vida adormecer."




Altemar Dutra

a pele


era o que de mais solitário


havia no seu corpo.






Luís Miguel Nava

Hoje eu sei que ferir foi calar.






Jorge Vercilo

sábado, 29 de outubro de 2011



"Eu conheço o medo de ir embora
Não saber o que fazer com a mão



Gritar pro mundo e saber

Que o mundo não presta atenção

Eu conheço o medo de ir embora
Embora não pareça, a dor vai passar


Lembra se puder

Se não der, esqueça

De algum jeito vai passar
(...)

Lembra se puder, se não der, esqueça...
De algum jeito vai passar..."



Osvaldo Montenegro.


Não esqueças, sobretudo,
de olhar devagar.



Vasco Gato

Absurdamente: CHOVE!



Chove muito, mais, sempre mais... Há como que uma coisa que vai desabar no exterior negro...

Todo o amontoado irregular e montanhoso da cidade parece-me hoje uma planície, uma planície de chuva. Por onde quer que alongue os olhos tudo é cor de chuva, negro pálido. Tenho sensações estranhas, todas elas frias. Ora me parece que a paisagem essencial é bruma, e que as casas são a bruma que a vela.

Uma espécie de anteneurose do que serei quando já não for gela-me corpo e alma. Uma como que lembrança da minha morte futura arrepia-me de dentro. Numa névoa de intuição, sinto-me, matéria morta, caído na chuva, gemido pelo vento. E o frio do que não sentirei morde o coração actual.



Bernardo Soares


*Absurdamente: chove! Amo...


Acordo com o teu nome nos
meus lábios — amargo beijo

esse que o tempo dá sem 
aviso a quem não esquece



Maria do Rosário Pedreira

E vou-me embora com ar de borboleta triste, depois da chuva, e volto mais tarde de peito cheio de rosas.

Manuel Cintra

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

...a carta...



Da carta que não chegou às tuas mãos, ficou
um passado memorável. Nela constavam os
pequenos episódios que vivemos juntos. Rasguei-a
junto ao rio, fiquei a olhar os pedaços de papel
serem absorvidos pelas águas turvas. A tentativa
de apagar finalmente o nosso passado. Dirias
que não havia necessidade, dirias que o que vivêramos
não valia assim tanto, nem mesmo três folhas escritas
o que conseguisse, pedaço a pedaço, até afogar-me de vez.
com o coração nas mãos, a arder. Eu sorriria diante de ti como alguém que morresse. Despiria as roupas e lançar-me-ia na corrente fria. Tentaria recuperar. 

Só existem duas razões para mexer numa ferida:
Curá-la, ou abri-la ainda mais.




Fernando M. Dinis
Não digo que te amei por ter possuído o teu corpo, mas sim por ter roçado a tua alma. Se pudesse estar apenas perto de ti, a ouvir a tua voz e a demorar o meu olhar sobre o teu, ter-te-ia amado na mesma... Fiquei presa no que está para lá do visível; enredada entre as folhas da tua verdadeira essência.




Possidónio Cachapa


Te amando devagar e urgentemente.


Chico Buarque

quinta-feira, 27 de outubro de 2011


Alma e corpo, corpo e alma... Que mistério!

Há animalidades na alma, e o corpo tem momentos de espiritualidade.

Quem poderá dizer onde cessam os impulsos da carne ou onde começam os impulsos físicos?



Oscar Wilde



Eu quero te contar
Das chuvas que apanhei



Das noites que varei
No escuro a te buscar




Chico Buarque


"Precisei de morrer para te desejar, precisei de morrer para ver a cor do desejo, que é branca, branca e irreparável, como tu, como nós dois. Quando fazíamos amor, não era o tempo que parava. Nós é que estávamos mortos, infinitamente mortos, boiando um dentro do outro num azul sem céu nem gravidade.(…) Estou à tua espera num sítio onde as palavras já não magoam, não ferem, não sobram nem faltam. Esse sítio existe."





Inês Pedrosa


Talvez mágoa.
Talvez fonte
Talvez 
rio.

Ou talvez a despedida
dum salgueiro
para
abraçar o frio.



Maria Azenha

quarta-feira, 26 de outubro de 2011


Eu sou a concha das praias
Que anda batida da onda


E, de vaga em outra vaga,
Não tem aonde se esconda.
Mas se um menino, da areia
A colher e a for guardar


No seio... Ali adormece
E é ali seu descansar.





Antero de Quental

"...só consegues tirar alguma coisa dos livros se fores capaz de pôr algo de teu no que estás a ler. Quer dizer, só se te entregares à leitura como a um duelo, como quem se mostra disposto a ferir e a ser ferido, a polemicar, a convencer e ser convencido, e, depois, enriquecido com o que tirou dos livros, disso se serve para construir qualquer coisa na vida ou no trabalho..."




Sándor Márai,

Há palavras como tecido: 

        incapaz de conter a explosão da pele



Nelson d" Aires

terça-feira, 25 de outubro de 2011




Eu não cavei teus abismos de mim. 
Fui teu abrigo, teu barco e lua cheia iluminando o caminho.

Você escureceu nosso afeto, minou nosso rio. 

Pra eu ficar, só precisava do seu toque-agasalho.
Você me deu um punhado de frio.




Marla de Queiroz

...uma vida inteira não seria suficiente para tudo que não nos acontece...



Um dia é maior do que a soma das suas horas, às vezes comporta todos os invernos e as estações assombradas pelos prejuízos do prazer. Eu e tu, que desculpa ainda nos justifica? A cidade não foi feita para as nossas pretensões, está apenas alastrada por dentro de nós, crispação de pedras e espinhos no laço desfeito entre as veias. Adiantamos o corpo aos rolamentos da noite, é a própria razão que nos ilumina os atalhos para o esquecimento. Um ano inteiro não será suficiente para tudo o que não nos acontece.





Rui Pires Cabral


...vivo para florescer outros jardins e sem perceber o meu se abarrota de rosas e manacás...


Pablo Neruda

traz contigo a maré da manhã com que todos os náufragos sonharam... mas volta!


"Volta até mim no silêncio da noite a tua voz que eu amo, e as tuas palavras que eu não esqueço. Volta até mim para que a tua ausência não embacie o vidro da memória, nem o transforme no espelho baço dos meus olhos. Volta com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário vestido com a mortalha da névoa; e traz contigo a maré da manhã com que todos os náufragos sonharam."




Nuno Júdice

segunda-feira, 24 de outubro de 2011


Às vezes tenho medo de esquecer tudo:


a casa onde nasci, o recreio

da escola, essas vozes


que lembram um copo de água

no verão.




Jorge Gomes Miranda

Estou nu diante da água imóvel. 


Deixei minha roupa


no silêncio dos últimos ramos.


Isto era o destino:

chegar à margem e ter medo da quietude da água.










Antonio Gamoneda,

A mais radical solidão,
eu, com todo o meu corpo apenas,
pela primeira vez. 




Eu, que sempre
levava comigo somente os olhos, primeiro,
depois, o ouvido e o tacto. 


Ali, naquela câmara do absoluto, do vazio,
do amplo – amplidão que multiplicava o vazio,
atenta enfim, a um cheiro ácido,
do grande Universo invisível.






Fiama Hasse Pais Brandão

domingo, 23 de outubro de 2011


Dizem que o nosso coração é do tamanho do nosso punho fechado: se o abrisse tanta coisa fugia.






António Lobo Antunes

Pudéssemos viajar, não para lugares longínquos de paisagens tremendas, não ao encontro de outros povos, culturas e cheiros, outras gentes e sabores, mas ao interior uns dos outros.



Rodrigo Guedes de Carvalho

E eu gosto tanto dele que não sei como o desejar.


Se o não vejo, imagino-o e sou forte como as árvores altas.


Mas se o vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dele*




Fernando Pessoa




*adaptado

O Céu e o Mar... talvez, talvez....


Talvez o céu seja um mar grande de água docetalvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu...


José Luís Peixoto

É qualquer coisa assim...

É qualquer coisa como um gosto
a sal e água sem chuva, um
lugar preciso em que se move
dentro
o papel de vida que se joga quando
as coisas teimam em fazer
algum sentido.


É qualquer coisa como o embaraço de
solstícios, inverno avesso a muitas cores e
próprio a ares que gostam de dizer
alguma coisa muito
muda
muito
ao contrário de dizer sem
dizer nada.


É qualquer coisa assim como algum
branco, como um gesto que se vai da
boca à escrita sem que nada seja
necessariamente
dito, nada necessariamente em pauta. É como
qualquer coisa de difícil faina, como se eu
pudesse
aqui
neste lugar sem chuva ou sal ou invernos,
neste lugar de fora e alguns muitos
sítios, arrancar da folha já sem fonte e sem origem
uma alfazema um relicário
ou
qualquer coisa como um gosto a ti





Luis Maffei

"Aprendi muito cedo que o sonho é mais que a realidade. No sonho, o cruel se desfaz com a mudança de foco. É simples. É só deixar de pensar. Se a paixão não convém é só trocar a cara. Fácil de resolver. A imaginação permite retoques, mudanças constantes. De Belo Horizonte a Paris eu levo um segundo. Não pago passagem, nem tenho problema com excesso de bagagem. Eu vou leve. Esqueço as roupas, Volto pra buscar. Troco a cena. Mudo o clima. Faço vir a chuva pra dormir logo. Invoco o sol para o meu mergulho e imagino a neve para amenizar o calor. Acendo lareiras nas noites frias; encontro a promissória perdida; ganho na loteria, e divido o prêmio com os pobres. Na angústia, adio a decisão. Na agonia, antecipo o fim. Na alegria, prolongo o início."




Pe. Fábio de Melo

sábado, 22 de outubro de 2011



Essa mulher é uma casa secreta.

Em seus cantos, guarda vozes 
e esconde fantasmas.
...

Quem entra nela, dizem, não sai nunca mais.




Eduardo Galeano


(...)
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
(...)


José Mário Branco

O passado é um pais estrangeiro, lá tudo é diferente...


Os mortos não deixam os vivos dormir até que se saiba a verdade. Não conhecer suas mortes é educar no desprezo a santidade da vida humana.”




Ramón Sovierzoski


'Um brinde, a todos aqueles que, entraram na fila errada, e estão neste mundo por engano, só para diversão dos deuses. Não escrevem, não cantam, não esculpem e nem declamam. Mas sentem, amam e acolhem anonimamente a poesia em seus ventres. Um brinde!'



 Marilda Confortin

sexta-feira, 21 de outubro de 2011



Mas nem todas dormem, nessa hora 
de torpor líquido e inocente. 
Muitos hão de estar vigiando, 
e chorando, a noite toda, 
porque a água dos olhos 
nunca tem sono...



Guimarães Rosa

"Ela gosta de espiar os querubins tontinhos de sono."







Caio Fernando Abreu




Chora aos berros como as crianças até te

estafares. Verás que depois adormeces
.






Vergílio Ferreira

"Toda vez em que eu me olho no espelho 
Estas linhas no meu rosto se enaltecem

O passado se foi,
Passou como do nascer ao pôr do sol 

Não é assim
Que todos pagamos nossas dívidas?
"



Aerosmith - 'Dream On' 


E fiz força, comigo, para me soltar do encantamento.



Guimarães Rosa

quinta-feira, 20 de outubro de 2011



"O amor não lembra do que precisa. Amor é não precisar de nada. É precisar do que acontece depois do nada, ainda que não aconteça. O amor confunde para se chegar ao mistério. Embaralha para não se ouvir. Perde-se no próprio amor a capacidade de amar. Amor é comer a fruta do chão. O chão da fruta. O amor queima os papéis, os compromissos, os telefones onde havia nomes. O amor não se demora em versos, se demora no assobio do que poderia ser um verso. O amor é uma amizade que não foi compreendida, uma lealdade que foi quebrada. O amor é um desencontro por dentro.''



Fabrício Carpinejar

talvez seja amor... talvez...


"...E não sei se sou eu
a tua casa,
Se és tu quem mora
em água eterna
em mim."


Ana Luísa Amaral

Um nenúfar flutua


Na mesma água

Que a Lua



Jorge Sousa Braga



A insonia, esta ferida de ferrugem, festeja noctívagas 

alucinações sobre a pele.



Al Berto

Mar... Amar


Se o mundo não tivesse palavras
a palavra do mar, com toda a sua paixão, bastava.


Não lhe falta nada: nem o enigma nem a obsessão.
Entregue ao seu ofício de grande hospitaleiro
o mar é um animal que se refaz em cada momento.


O amor também.
Um mar de poucas palavras.





Casimiro de Brito

quarta-feira, 19 de outubro de 2011


 Deixa 

         Eu 
              Ter 
                   A 
                      Tua 
                           Mão 
                                 Mais 
                                        Uma 
                                               Vez 
                                                     Na 
                                                         Minha…

 


Oswaldo Montenegro
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