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sobre o teu corpo caio 

daquele modo que o verão tem de espalhar os cabelos

na água esparsa dos dias 

e faz das peônias uma chuva de ouro

ou a mais incestuosa das carícias. 





Eugénio de Andrade
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“procura-me por todos os lados, 
procura-me às escuras por todos os lados, 
estarei algures, fremindo, 
criando bichos entre os braços e as pernas, 
aguardando que me salves. 
só assim te amarei, 
se souberes descortinar o caminho para o lugar onde 
me escondo, com medo, com fantasmas, 
feito para ser amado apenas por quem, 
avistando-me no fundo do poço,
 me puder querer sem garantia de outra condição”





Valter Hugo Mãe
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não temos nome somos apenas  objetos que respiram
quando o tempo não se gasta com a respiração envelhece com os instantes guardados no fundo das gavetas
enumeramos solidões onde o corpo se torna lento e a pouco e pouco atravessamos outonos sem precisar de mapas



maria sousa
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Ah, e dizer que isto vai acabar, que por si mesmo não pode durar. 
Não, ela não está se referindo ao fogo, refere-se ao que sente. 
O que sente nunca dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar. 
Encarniça-se então sobre o momento, come-lhe o fogo, e o fogo doce arde, arde, flameja. 
Então, ela que sabe que tudo vai acabar, pega a mão livre do homem, e ao prendê-la nas suas, ela doce arde, arde, flameja.



Clarice Lispector
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Depois alguém morreu; a estada tornou-se penosa, o verão parecia não ter fim.

Era tempo de fazer malas e projetos, de trocar pautas por desacertos, como, no último trimestre do liceu, quem se apaixona e arrepende da solidão que perdeu.

Assim chegou o outono ─ depois alguém morreu.



José Alberto Oliveira
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Estou no meu quarto. Deitada na minha cama. A luz está acesa. Ouço música. 
Penso em ti mas não é em ti. É um tu abstrato 
porque a tua ausência é uma lesão incurável que se imaterializa com o tempo. 
Por fim adormeço. 





Ana Hatherly
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o meu relógio de amar parou em cima da mesa


Mário Cesariny