segunda-feira, 5 de dezembro de 2016


As palavras são como cheques bancários, têm que ter fundos, e os olhos entregam o que a boca silencia




Pedro Bial

domingo, 4 de dezembro de 2016


numa noite de audácia incomparável

passo a tratar-te por tu, e abraço com as pontas dos dedos

os nós das tuas mãos; 

no fresco calor condicionado

de um quarto onde a luz não dá para ler, recito

estrofes e mitos; 

beijo-te, não é? 

nada estava escrito,

nenhuma verdade comum aos planetas,

éramos só nós sem nenhum segredo,

vivos e completos, serenos, mortais.



António Franco Alexandre

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016


Hoje, apenas sinto o vento reacender feridas,

nada possuo,

nem sequer o sofrimento.



Al Berto

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016


'Penso em ti como um desejo interrompido 


que se teceu na minha memória.


E sonho-te mais do que te recordo.


Seleciono. 
Invento-te um nome, um rosto. 


Reconstruo. 
Reconstruo-te.


Peça a peça.


Minuciosamente – real ou irreal,


- Assim te lembro.'


.





Amélia Pais]

terça-feira, 29 de novembro de 2016


29/11/2016


"Por mais que eu seja emotivo - e sou bastante - evito escrever quando estou muito mexido. Costumo dizer que futebol é metáfora da vida e talvez por isso esse lance com a Chapecoense me deixa tão triste. Porque, por mais que torçamos pra Flamengo, Corinthians, Vasco, Palmeiras, Santos e outros grandes times, na vida a gente é mesmo uma Chapecoense. A gente sonha, luta, batalha, joga fechadinho na defesa, aguenta pressão no trabalho, salva bola em cima da linha no último minuto e quer ser campeão de algo, vibrar com a felicidade, alçar vôos altos. A gente é Chapecoense na vida porque, por mais que algumas vezes queira e em outras se sinta impotente, está lá, sempre na peleja. Nem sempre com torcida a favor, às vezes com o estádio da vida lotado, tentando virar o jogo fora de casa, mas estamos lá, buscando nossa realização, nosso conto de fadas. A gente adotou a Chapecoense porque ela é gente da gente. Com essa queda, a gente vê como se importa com bobagem, como perde energia com coisas pequenas, inclusive por aqui. Como a gente se demora em questões que não geram amor. "Donde no puedas amar, no te demores". Já que vamos seguir na vida, é preciso ser mais Chapecoense. Se encontrar mais, sorrir mais, discordar quando for necessário, mas se respeitar mais. Cultivar os afetos, deixar os desafetos pra lá, nos livrar das âncoras e seguir com as velas. É preciso seguir, é preciso soprar. Vamo, vamo, Chape. Na metáfora dessa vida, jogo de futebol eterno, Chape somos nós."



Arthur Chrispin



http://espnfc.espn.uol.com.br/chapecoense/vamo-verdao/11902-o-que-a-chapecoense-fez-ontem-nao-tem-nome


domingo, 27 de novembro de 2016


Há destinos que são travessias: 
o meu, por exemplo:
 uma voz, de um silêncio a outro.



- Rui Nunes

sábado, 26 de novembro de 2016


Não creio ser um homem que saiba. 

Tenho sido sempre um homem que busca, mas já agora não busco mais nas estrelas e nos livros: começo a ouvir os ensinamentos que meu sangue murmura em mim.

 Não é agradável a minha história, não é suave e harmoniosa como as histórias inventadas; sabe a insensatez e a confusão, a loucura e o sonho, como a vida de todos os homens que já não querem mais mentir a si mesmos.




Hermann Hesse

sexta-feira, 25 de novembro de 2016


(…) há a noite da tua pergunta,

há a noite de não te responder,

há a noite do medo dos nomes que há para a noite,

há no interior desta noite a esperança de uma noite anônima, isto é, de um silêncio e de um escuro que não se voltam para nós como uma acusação,

há um silêncio que me interroga e há todas as respostas inúteis,

há a tua morte na saliva que ficou nos meus lábios,

há a tua voz que se afastou,

ouvir um som que desconheça lábios, o do lume, por exemplo, o desta lareira com o seu quebra-fogo,e pela casa uma vacilação que a sustém, e no extremo a ilumina, nós estamos deitados no soalho, a tarde desce pela vereda, com o mar recortado de trepadeiras, os coelhos pararam junto à sebe, de onde se ergue o vazio entre muros e troncos.

Estamos no medo, na paz do medo, com o sol a crescer para o poente (…)



- Rui Nunes

quinta-feira, 24 de novembro de 2016


pernoitas em mim 
e se por acaso te toco a memória… amas 
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos 
escuto o rumor da terra molhada 
a fala queimada das estrelas

é noite ainda 
o corpo ausente instala-se vagarosamente 
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras 
e nenhum lume irrompe para beberes




Al Berto

deixa, por favor, ao meu corpo
o direito absoluto aos teus vinte anos
ao primeiro beijo, ao primeiro cigarro
ao indeciso movimento dos teus dedos
desabotoando a minha blusa.



Alice Vieira