quinta-feira, 14 de dezembro de 2017


Onde terei abandonado a paixão por esse marinheiro que só existiu dentro do meu sonho?

Olho as fotografias. 

Faz-me pena olhá-las, falar-te delas.

Tenho sempre a suspeita que me abandonaste nesse dia... eu sei, raramente podemos ser o que queremos ser.







Al Berto

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

VaZiOs



Quero falar-te das horas incandescentes que antecedem a noite e não sei como fazê-lo. 



Às vezes penso que vou encontrar-te na rua mais improvável, que nos sentamos diante do rio e ficamos a trocar pedaços de coisas subitamente importantes: a tua solidão, por exemplo.




Mas depois, virando a esquina, todas as esquinas de todos os dias, esperam-me apenas as aves que ninguém sabe de onde partiram.







Vasco Gato

“Não valia a pena esperar, ninguém viria que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos, estávamos sós e essa solidão éramos nós”



Manuel António Pina

terça-feira, 12 de dezembro de 2017


Dizem que os venturosos e os néscios


chamam melancolia a esta porcaria


que apodrece o coração e asfixia a alma.







Amalia Bautista

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017


a vida toda fodida -

a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.




a dor de todas as ruas vazias.







Al Berto

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017


E por mais que eu amoleça não se aproxime: eu não quero abraços, eu não quero conselhos. 


Engatinhei demais em cima da brita durante os meus aprendizados, só eu consigo enxergar as feridas e o cuidado que preciso dar para curar os meus dois joelhos. 



Marla de Queiroz

terça-feira, 5 de dezembro de 2017


"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria. 


A tua vida é uma história triste. 


A minha é igual à tua.


 Presas as mãos e preso o coração, enchemos de sombra a mesma rua."




Eugénio de Andrade


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017


"

Não se concentre tanto nas minhas variações de humor, apenas insista em mim. 

Se eu calar, encha-me de palavras, me faça querer dizer outra e outra vez sobre você, sobre nós e todo esse amor. 

Se eu chorar, não me faça muitas perguntas, não precisa nem secar minhas lágrimas; 

Só me diz que você continuará comigo pra tudo, que tenho teu colo, teu carinho. 

E ainda que te doa me ver assim, me envolva em seus braços e diga que eu posso chorar, mas que você não sairá dali enquanto eu não sorrir. 

Porque é isso que nos importa, não é? 

O sorriso um do outro.


Não é?

"


— Caio Fernando de Abreu

domingo, 3 de dezembro de 2017

Conta se você reza antes de adormecer.... Delicadezas...



Hoje, se quiser, se puder, se souber, me fala de você. 

Da essência vestida com essa roupa de gente com a qual você se apresenta.

Fala dos seus amores, tanto faz se estão perto do seu corpo ou somente do seu coração. 

Fala sobre as coisas que costumam fazer você sintonizar a frequência do seu riso mais gostoso. 

Fala sobre os sonhos que mantêm o frescor, por mais antigos que sejam. 

Fala a partir daquilo em você que não desaprendeu o caminho das delícias. 

Do pedaço de doçura que não foi maculado. 

Da porção amorosa que saiu ilesa à própria indelicadeza e à alheia. 

A partir daquilo em você que continuou a acreditar na ternura, a se encantar e a se desprevenir, apesar de tantos apesares. 

Conta sobre as receitas que lhe dão água na boca. Sobre o que gosta de fazer para se divertir. 


Conta se você reza antes de adormecer.




 Ana Jácomo

o silêncio ocupa-me e da caixa libertam-se corpos


cores violentas, olhares cúbicos, pássaros filiformes



Al Berto

sábado, 2 de dezembro de 2017


(…) 
É preciso aceitar esta mágoa, esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. 

É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução.

(…) 
Dizem-nos para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. 
Fica tudo à nossa espera. 

Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. 
O esquecimento não tem arte. 
Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar.

 Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.




Miguel Esteves
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