domingo, 27 de maio de 2018



"O que mais nos dói e atrapalha na morte de quem amamos, de imediato, é o desaparecimento súbito do corpo. Essa repentina falta de assunto para os olhos físicos, bem acostumados que são com o tom da pele, o jeito dos cabelos, os diferentes desenhos de sorriso para cada contexto, a linguagem do olhar, a expressão corporal que cada um tem para falar e silenciar. E também o som da risada, o registro da voz, a textura do abraço, músicas que os sentidos ouvem e correm pra contar para o coração.

Fica, de cara, uma ausência esquisita. Esse estranho fechamento das cortinas quando o show continua a acontecer para nós. Essa inexistência física de um lugar para onde ir que nos permita encontrar o que habitualmente encontrávamos. Até nos darmos conta de que existem outros olhos para ver, a tristeza nos perturba. E dói. Dói muito.(…)

Ninguém morre quando continua no outro. Mas só o tempo nos ensina o caminho dessa mágica do amor. Só o tempo, esse cicatrizante."

Tempo, esse cicatrizante 


Ana Jácomo

sábado, 26 de maio de 2018


E de repente, o Amor é esta ferida aberta.

Suja.


Fatima Abreu Ferreira


Naquele dia choveu ao contrário


a chuva fina e o seu silvo subiam do chão


e eu caindo da janela


sem um raio de sol que me amparasse






Miguel Martins

sábado, 19 de maio de 2018


Trago-te debaixo da minha pele. 

Apanhaste-me desprevenido. 

Atingiste-me o coração, pecado meu. 

E agora é tarde para tudo senão para escrever. 

O teu coração tão branco a bater perto de mim. 

Embora o não ouvisse sei que estava lá.





pedro paixão

sexta-feira, 18 de maio de 2018


nada estava escrito,


nenhuma verdade comum aos planetas, 


éramos só nós sem nenhum segredo, 


vivos e completos, serenos, mortais






António Franco Alexandre

domingo, 13 de maio de 2018


Mãe! 

passa a tua mão pela minha cabeça!



Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!

Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.




- José de Almada Negreiros

sábado, 12 de maio de 2018


Preciso de alguém para tirar o meu corpo da cruz. 

Tenho buracos nas mãos devido ao toque. 

Os meus pés como palavras impedem-me de partir. 

Há demasiadas questões sobre o porquê de falharmos. 

Recuso confessar se amo ou peco 





E. Ethelbert Miller

domingo, 6 de maio de 2018


"Que das suas cicatrizes saiam poder para curar"



Denise Corrêa

sábado, 5 de maio de 2018


tinha um poema por entre as pálpebras,
tinha um poeta dentro das pernas,

tinha palavras debaixo da língua,
tinha metáforas a morder-lhe o ventre.

vomitava poesia por todos os poros.
escorria-lhe por entre os dedos,

escapava-lhe pelos orifícios como
enguias lúbricas de inspiração.

esperava pelo seu silêncio,
estava pronta para a revelação.



Madalena de Castro Campos

Gostava de falar em voz alta comigo mesmo


mas tenho medo



Al Berto

sexta-feira, 4 de maio de 2018


mais uma vez desce as escadas 

para falar de ausências 




tem medo e em dias curtos decide 

envelhecer no interior da casa



ao sono conhece-o como fuga ao silêncio

um dia escreveu (era domingo) sobre os vestígios 


da respiração nos pequenos nadas

anos depois refugia-se no outono como 

quem vê a vida toda nas folhas






- Maria Sousa 


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